
Retomando o tópico da Noite de Albergue.
Num ambiente comunitário há que respeitar a dona-de-casa.
É a regra de ouro que todas as mães passam aos filhos quando estes têm idade suficiente para fazer o tour social das bochechas apertadas por pessoas pseudo-desconhecidas e comentários de 'Ah está tão crescida' quando estão exactamente do mesmo tamanho que estavam ontem.
Na casa dos outros, portem-se bem.
Por essa razão, às 22horas, interrompemos a nossa 'playlist'/mini-fogo-de-conselho no exterior do alberge e entramos debaixo do olhar decidido e ligeiramente reprovador da responsável.
Tentámos ainda, no espírito da coisa, fazer uma oração em grupo antes de nos retirarmos. Oração que foi imediatamente interrompida pela boa senhora, que não se compadeceu da nossa sede de espiritualidade àquela trágica hora da noite.
O aviso foi claro:
Eram 22horas. Jesus teria de esperar pelo dia seguinte.
Resignados, subimos para o dormitório com a cabeça baixa de quem levou nas orelhas duas vezes em espanhol.
Mas não somos nada senão escuteiros rebeldes e uma vez no dormitório fizemos o belo do circulo e a dinâmica da oração foi para a frente.
Separamo-nos em silêncio e cada um foi para a sua caminha.
Assim teve início as cinco horas mais dificeis da viagem:
Imaginem que dormiram apenas duas horas na noite anterior. Duas horas sentada, constantemente abanada pela gargalhada de companheiras de caminhada claramente nocturnas. Imaginem acordar no dia seguinte apenas para caminhar 22 km, os últimos numa velocidade razoável para conseguir abrigo no albergue e uma tarde dividida em dinâmicas, busca de super-mercados e patinhos a nadar. Talvez no fim estejam ligeiramente cansados. Talvez queiram até dormir...
Talvez não devessem ser acordados dois minutos depois de fecharem os olhos por uma luz ofuscante que quase me lançou do beliche abaixo. Talvez "alguém" devesse guardar a máquina e o flash para o dia seguinte.
Depois de algumas explosões de luz tanto Ana como eu rendemo-nos à evidência que o sono é um luxo, do qual não iamos usufruir.
Outra lição valiosa: Orações podem esperar pelo dia seguinte. Mas o futebol não. Com uma autorização especial segue-se a entrada de um grupo barulhento que ficou a acompanhar o jogo num dos bares locais, a bradar em alemão e a brincar com lanternas.
De referir ainda a sinfonia do ressonar naquele quarto. Oh! A sinfonia do ressonar. E depois os risos. E depois a segunda vaga do futebol. E o espectaculo de lanternas.
Yup, nada como uma noite relaxante de alberge.
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